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Turismo em cavernas na Florida-USA 2008
Ponto de encontro: Aeroporto de Guarulhos, 7:30 hs. Já estou na “estrada” desde
3:30hs; táxi para o aeroporto Tom Jobim (Galeão), avião para São Paulo... pronto!
Sampa, 7:15 hs. Na hora! Encontro com Milício (veio de Minas Gerais) e nos dirigimos
ao local combinado para achar o resto do grupo – mergulhadores de São Paulo e do Sul,
principalmente de Curitiba. Cumprimentos à parte - já velhos conhecidos de treinos em
Mariana – MG (Mina da Passagem), e outros locais em cursos de mergulho técnico, fomos
à Receita Federal fazer as declarações de equipamentos importados que levamos do
Brasil e, finalmente, ao embarque rumo ao Panamá....ops...com um atraso não previsto
por conta de um “problema técnico” no avião....
Infelizmente esse problema se repetiu em pleno ar e, para completar o atraso de vez,
pousamos em Lima – Peru, para uma “escala técnica”... Bem, isso fez com que o atraso
fosse maior que o tempo que tínhamos para fazer a conexão no Panamá para Orlando
(cidade destino). Perdemos o avião e passamos a noite no Panamá, pena que isso fez
com que perdêssemos nosso primeiro dia de mergulho, mas, vamos lá... adaptamos
nossa programação e, no dia seguinte: EUA.
Orlando. Imigração, documentos, malas, caixas de equipamentos... tudo ok! Pegamos os
carros alugados, encontramos com o restante do pessoal – um pequeno grupo já estava
por lá há alguns dias- e seguimos viagem até a cidade de Marianna, cerca de 5 horas
distante, local de nossos primeiros mergulhos.
Chegamos à noite e fomos direto à operadora local. Conhecemos o proprietário, Eddye
Sorreson. Muito gente boa, nos recebeu muito bem e nos acomodou em duas de suas
casas que mantém para alugar aos visitantes. Ficam na mesma rua da casa em que mora
que, por sua vez, é anexa à operadora, isto é, tínhamos contato permanente com ele.
Muito bom esse sistema de hospedagem, íamos, após os mergulhos ao mercado local
para abastecer as casas, para café da manhã e lanches. Fazíamos também o famoso
“almo-janta”, tão conhecidos dos mergulhadores, uma jantar mais cedo, caprichado
pois lanchávamos durante o dia, nos intervalos de superfície, não restando tempo
para almoçar. A operadora foi o ponto de encontro antes e depois dos mergulhos,
onde conversávamos com o pessoal local trocando experiências ( aprendendo muito
com as dicas de equipamento, técnicas de mergulho, possíveis adaptações, enfim, só
estando lá mesmo, em meio aos melhores mergulhadores de caverna dos EUA para saber.

Em Marianna, o sistema era o seguinte: alugávamos o equipamento (cilindros e recarga)
e um barco para cada 4 mergulhadores. Daí, tudo mais era por nossa conta, isto é,
escolha do ponto de mergulho, planejamento, pilotagem do barco, comida, etc. Bom o
sistema pela sua simplicidade e autonomia dada aos mergulhadores.

A operadora fica na margem do rio (pântano?) que tem os principais pontos de mergulho,
daí era só navegar alguns poucos minutos e já estávamos no local. Amarra o barco numa
árvore, prepara, mergulha ... depois, “caminho da roça”... beleza!

Durante nossa estadia em Marianna, nosso anfitrião nos brindou com um “barbecue”, para
nos apresentar aos mergulhadores locais. Muito bom... melhor ainda...free !!! Um
mergulhador local, veio falar comigo e Milício dizendo que adorava o Brasil e que
havia estado aqui em 2002; mergulhou em Arraial do Cabo e adivinhem, com quem? PL
DIVERS!!! Mundo pequeno.....mundo pequeno....
Nossa segunda e última base de mergulho foi High Springs. Saímos de Marianna à
tardinha e, em cerca de 3 horas, chegamos a um típico hotel desses que vemos nos
filmes, na beira da estrada, simples e bem confortável: High Springs Inn.
Jantávamos em frente, do outro lado da estrada, no Floyd’s Dinner. Bem legal,
com boa comida e bom preço, porém fecha às 21 hs. daí a dica de acelerar quando
chegar do mergulho.
Por lá usamos a operadora Amigo’s, do Wayne Kinnard, outro cara fantástico, que nos
atendeu super bem, a ponto de cada um anotar seus próprios gastos na conta –
confiança total !!!! No último dia, o convidamos para um jantar de confraternização
– muito legal...muita conversa, piadas, clima descontraído a ponto do pessoal do
restaurante “entrar na roda”... todos ficaram tristes com nossa partida.
Na volta, chegamos a Orlando à noite e ficamos preparando as malas, umas cervejas
(Ufa !! Finalmete!!) para a despedida do grupo e pronto! Acabou! Dia seguinte,
aeroporto. Carros devolvidos, embarque rumo ao Panamá. Outra conexão e, algumas
horas depois, Brasil...
Praticamente todos os mergulhos foram descompressivos, sem qualquer tipo de problemas.
Usamos Nitrox nas duplas (sendo a fração de O2 variando de acordo com a profundidade
do local), e Oxigênio puro para acelerar a descompressão aos 6 metros de profundidade.
Devido à variação do relevo, principalmente em relação à profundidade, bem como o
fluxo da correnteza, além do planejamento prévio (pelas orientações do pessoal local),
o uso de computadores como instrumentos auxiliares foram de muita valia, garantindo
nossa segurança em termos de absorção de gases / descompressão.
Vimos muitas coisas diferentes por lá. A cultura do mergulho em caverna é muito
difundida; há pessoas que tem isso “no sangue”, que de tão comprometidas, fazem do
mergulho seu estilo de vida. Carros adaptados (geralmente utilitários) para carregar
equipamentos; pessoas idosas que percorrem grandes distâncias para fazer seus
mergulhos, conversam, interagem e se despedem com um “até semana que vem”...
invejável.... Há respeito e solidariedade entre os mergulhadores de sobra. Todos
foram muito solícitos oferecendo ajuda aos brasileiros o tempo todo.

Mas, como nem tudo são flores, vimos também práticas bastante questionáveis por parte
de alguns mergulhadores locais. Vimos péssimos exemplos como o uso de equipamento
improvisado, como o caso de um senhor (que nos parecia ter, no máximo, o nível
básico de mergulho recreativo), fazer uma entrada com um S-80, colete tipo jacket,
sem carretilhas e com uma lanterninha da pior qualidade. Nos pediu dicas, mas
acabamos por alertá-lo do que poderia acontecer mergulhando daquela forma e ele,
não sei se por resultado disso, ou por mero constrangimento, ficou apenas na entrada
da caverna, aproveitando o que podia ver de fora; mas ainda assim, sozinho... Vimos
vários mergulhadores nos ultrapassar lá pela casa dos 1000 metros de penetração com
scooter e absolutamente sós... solo diving por lá acontece mesmo... Muitos usando o
jump visual (sem uso de carretilha)... infelizmente, a total liberdade para mergulhar
por lá, nem sempre é bem aproveitada resultando em acidentes, muitos com morte.
Bem, mas isso não tira o brilho do que foi construído por lá ao longo dos anos;
como disse, a cultura do mergulho em caverna sobrevive e “contamina” quem quer que
seja. Parques lindos e bem cuidados, funcionários e guardas muito educados e
prestativos.


As regras são cumpridas à risca por todos (ao menos enquanto estivemos por lá),
foi uma viagem que, além do lazer, cumpriu o importante prazer de nos proporcionar
um grande aprendizado. Aprendi como é importante e aprazível respeitar, tanto as
pessoas como o ambiente e, principalmente os limites de cada um.
Uma viagem inesquecível e com muitas outras estórias para contar. Certamente
estaremos juntos em algum mergulho por aí, com tempo e espaço para uma boa conversa,
coisa que não faltou na estada na Flórida com o povo local. Como bom papo e ótimos
mergulhos são coisas das quais ninguém quer escapar, quem sabe, no próximo ano,
estaremos trazendo novidades ????
Principais pontos de mergulho em Marianna e High Springs:
JACKSON BLUE
Fica num parque, com entrada paga, por dia, com uma excelente estrutura de apoio.


Tem bastante fluxo (correnteza), para de ter uma idéia, gastamos cerca de 35 a 40
minutos para fazer a penetração na caverna, e para percorrermos o mesmo caminho,
na volta, apenas 15 minutos. Atingimos cerca de 30 metros de profundidade. Trata-se
de uma caverna linda, bem decorada e que pode-se fazer um jump, logo na entrada, à direita onde a gente se deparou com uma restrição bem pequena, mas que cabia uma
dupla de cilindros e “meio”mergulhador por vez... mas bastou cavar um pouco o fundo
com as mãos, forçar um pouco na parede e, abre-se um pequeno salão muito bonito ...
vale à pena o esforço ... para quem gosta, maravilha!


A entrada é bem ampla, cabendo, na maior parte do percurso, vários mergulhadores
ao mesmo tempo. Por muitas vezes, cruzamos com grupos usando scooters (possível
alugar por lá por cerca de U$ 100 por dia).
HOLE IN THE WALL
Esse ponto de mergulho é incrível. Pode ser a tradução literal do nome: Buraco na
parede. Difícil de localizar a entrada por que é, sem querer ser redundante,
um buraco no barranco que faz a margem do rio, junto ao fundo do leito.
Amarra-se o bote numa árvore próxima e, em fila indiana, um a um faz a entrada.
Logo uns 10 metros adiante, abre-se um pequeno salão, com duas opções de mergulho
(condutos): UPSTREAM (para a direita) ou DOWNSTREAM (para a esquerda). Atingimos
ali a profundidade de 26 metros. “UP” tem passagens mais amplas, porém, “DOWN” tem
paredes mais acidentadas, mostrando um relevo mais bonito. Foram mergulhos bem
tranqüilos, pois o fluxo da correnteza não era dos mais fortes. A dica é fazer
dois mergulhos, um num sentido e, após um intervalo de superfície, ir para o outro.
GINNIE SPRINGS
Outro parque com excelente estrutura turística. Como ou demais, muito bem conservado,
com loja, vestiários, banheiros limpos, estrutura para camping e inúmeros locais
junto à natureza para passar o dia, com churrasqueiras e as chamadas “picknic tables”,
grandes mesas com bancos acoplados que usávamos para nos equipar.

O mergulho pode ser feito a partir de três pontos, um deles muito estreito; só se
consegue entrar utilizando a técnica “no mount”, com dupla, nem pensar. Os outros
dois, se interligam e. pelos nomes, já se pode imaginar que têm grau de dificuldade
maior que os demais: “Devil’s ears” e “Devil’s eyes”.

Nosso batismo de fogo ( ou seria água?) foi em EARS. Eu nunca vi tamanho fluxo
contrário à entrada. Foi, sem dúvida, a maior correnteza que enfrentei.

A entrada é muito estreita, o que faz com que a correnteza do rio (que já é grande),
seja multiplicada em força, à medida em que fica mais restrita sua passagem. Eu e
Milício “apanhamos” muito! Cada tentativa de “abrir” nossa carretilha para ligar ao
cabo principal, resultava num desenrolar involuntário de metros de cabo; resultado,
perdemos tempo na entrada para vencer o fluxo. Lá dentro, há um macete para a
locomoção: ir se “escondendo” nos acidentes do teto e paredes, evitando o fluxo
contrário, avançando pouco a pouco. Os mais experientes (locais) utilizam essa técnica
parecendo morcegos pendurados ao longo do teto.
Durante a entrada e saída, tive a impressão de estar sendo “batido” numa máquina de
lavar roupa! Pagar uma deco por ali, tem que ter muito cuidado para não variar a
profundidade (atenção a isso!!), devendo agarra-se a uma pedra na parede do conduto
de subida. Aos 6 metros, já há uma diminuição desse fluxo, com um grande tronco de
árvore servindo como base para a deco.
Depois, no segundo mergulho do dia, entramos por EYES. Muuuuuuito mais fácil, com
fluxo bem menor bastando, depois, na área comum às duas entradas, amarrar a
carretilha primária ao cabo principal, e aproveitar o mergulho. Por esse ponto,
a saída também é facilitada, principalmente se houver necessidade de “pagar” deco
aos 6 metros.
PEACOCK
Um dos melhores complexos de cavernas para mergulho, com várias opções de túneis.
Pode-se escolher dentre vários condutos de travessias, percorrendo o a extensão do
parque, emergindo em lugar diferente do iniciado (combinar antes o planejado à
equipe de terra ou outros para encontrar no lugar, muitas vezes fica distante do
ponto de origem, tendo que carregar a tralha de mergulho, no retorno, andando).
Há mapas em todas as entradas, indicando as possibilidades de percursos.

Engraçado que no briefing inicial, nos foi recomendado que aproveitássemos bem os
mergulho e cuidado com os jacarés... confesso que pensei que fosse mentira,
exagero, sei lá, mas, apesar de não ter a sorte (?) de encontrar nenhum, num vídeo
local que comprei por lá, uma equipe de mergulhadores, logo na entrada fica lado a
lado com um bicho desses....e bem no lugar que entramos....deixar de pensar nisso
durante o mergulho fica meio difícil, né? Mas tudo bem.
O mergulho começou, com quatro mergulhadores, divididos em duas duplas; tudo
transcorreu bem na ida, com um relevo incrível, diversos salões, jumps, e havíamos
planejado uma deco relativamente rápida aos 6 metros, retornando pelo ponto de origem,
mas fazendo uma travessia até uma pequena laguna chamada “Water hole”, onde
emergimos, e fizemos um intervalo de superfície, retornando ao ponto inicial.

Após o intervalo de superfície, voltamos ao ponto de entrada e rumamos para outro
conduto, igualmente interessante. É um local que está muito sujeito ao “silt”,
devendo ter cuidado na hora de bater as pernas... mas é muito bonito, com jumps,
uma correnteza confortável e lindas paredes.
LITLLE RIVER
Mais um ponto maravilhoso, nosso último local de mergulho da viagem.

Com um visual incrível, fica também num parque. Nos equipávamos dentro do carro
(isso mesmo), caminhávamos, descendo uma escadaria até chegar no acesso (água).


Fica num rio que tem coloração extremamente ferruginosa ( Rio Swannee), mas nesse
local de mergulho (não me pergunte o porquê), que é um braço desse mesmo rio, a
água é cristalina e com ótima temperatura e pouco fluxo.




Relato de :
Fernando H.R. Figueira
Dive Supervisor PDIC# 102432
Full Cave Diver TDI # 309107
Technical Cave Diver IANTD # 97574
Veja:
Curso em Mergulho
Recreativo de Caverna e de Naufrágio (Esportivo e
Técnico)
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