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Rebreathers na PL Divers (parte II)

No litoral brasileiro existe uma magnífica cordilheira, desconhecida pela maioria das pessoas. É uma cordilheira formada por picos de mais de 4 mil metros de altura e diversos vulcões extintos. Ela começa no litoral da capital do Espírito Santo, Vitória e segue até o meio do oceano Atlântico. A grande maioria destes picos está submersa, mas alguns ultrapassam a superfície, formando ilhas como a Ilha de Trindade e Martim-Vaz, os pontos mais afastado do litoral brasileiro (1.160 Km de Vitória). Essa cordilheira chama-se Cadeia Vitória-Trindade. A grande maioria destes picos submersos encontra-se inexplorada e desconhecida. Além da distância da costa, outro fator limitante é a profundidade, visto que a maioria dos cumes destes picos encontra-se abaixo dos 50m de profundidade, o que em termos de mergulho científico no Brasil já pode ser considerado uma Zona de Crepúsculo.

Em meu trabalho de doutorado, tive o prazer de contar com a colaboração de pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Estes pesquisadores tinham uma intrigante pergunta: sendo a Ilha de Trindade o ponto mais afastado do litoral brasileiro, como tantas espécies conseguiram se estabelecer por lá? Nós sabemos que o Arquipélago de São Pedro e São Paulo é um ponto também bastante afastado (1.010 km de Natal) e que ele constitui o ponto mais pobre em espécies no litoral brasileiro. Será que os cumes dos picos da cordilheira constituem uma passagem para que os organismos marinhos consigam chegar até a Ilha de Trindade? Apesar de complexa e técnica, esta pergunta envolve dois aspectos básicos. Primeiro: não se sabe nada sobre o fluxo de organismos dentro da cordilheira. Segundo: caso a resposta a esta pergunta seja positiva, a cadeia Vitória Trindade seria uma área prioritária para conservação no litoral brasileiro, visto que permite que espécies passem constantemente de uma ilha para outra e por que esta mantém processos evolutivos estáveis há milênios. Entretanto, os pesquisadores da UFES tinham um pequeno problema. Os picos são distantes e muito profundos. Como mergulhar lá o tempo necessário para conseguir capturar novas espécies, coletar amostras de DNA dos peixes e fazer filmes e tudo o mais? “Muito simples” - disse o Instrutor Mike Netto, membro da expedição: “Usaremos rebreathers!” Esta magnífica solução gerou outro problema: onde fazer o treinamento, visto que as águas do litoral de Vitória são extremamente agitadas e imprevisíveis? Além disso, a expedição partiria em breve, todos os recursos estavam direcionados à preparação da embarcação e o restante do dinheiro havia sido gasto. A colaboração é uma parte essencial da ciência brasileira. Assim que eu soube dos problemas de meus colegas entrei em contato com o Dimitri Praet da PL Divers. Ele prontamente ofereceu (sem custos!!) toda a estrutura da operadora, incluindo embarcação, estação de recarga e o que mais fosse necessário para ao treinamento dos membros da expedição no uso de rebreathers.

O curso ocorreu entre os dias 08 e 13 de Janeiro de 2011 na PL Divers, Arraial do Cabo. Como cientista, sempre me interessei por estas máquinas, visto que permitem mergulhos muito mais profundos, com mais segurança e com menores tempos de descompressão. Uma vantagem menor, mas muito apreciada por nós, é o fato dos rebreathers (CCR) não soltarem bolhas. Isso faz com que a presença do mergulhador altere muito menos o comportamento dos organismos marinhos. Isso tudo eu já sabia antes de fazer o curso, mas duas coisas em especial me chamaram muito a atenção. Por vários motivos, o gás que o mergulhador inspira vem aquecido e úmido. Isso torna o mergulho muito mais agradável. Outro aspecto que me fascinou foi o seguinte: não importa a sua experiência como mergulhador com Circuitos Abertos, você é novamente um novato! Sua flutuabilidade será ridícula por vários dias e seu consumo de gás será enorme... Trim? Esqueça isso também... Terá que aprender de novo.

Os rebreathers são muito diferentes entre si. Existem os que nunca soltam bolhas (CCR) e existem aqueles que soltam bolhas de vez em quando (SCR). Dentro destes dois tipos existem aqueles que usam sistemas totalmente eletrônicos outros totalmente manuais e os híbridos, cada um destes produzidos por uma fábrica de um modo diferente! Isso significa que você não fará um curso de rebreather, mas um curso sobre o modelo x da marca y. É possível fazer um crossover, mas sempre que for utilizar um novo modelo e/ou marca de rebreather será necessário tomar aulas novamente. Para o trabalho de cientista, que normalmente está em localidades remotas e inóspitas, a máquina mais robusta costuma ser o CCR Megalodon da InnerSpace Systems. Devido à natureza do trabalho dispensar muita atenção, unidades totalmente eletrônicas (eCCR) são mais recomendadas. Por isso fizemos o curso de para o Megalodon eCCR APECS, a unidade totalmente eletrônica, onde o oxigênio é injetado por meio de uma válvula solenóide.

A expedição Cadeia Vitória Trindade partirá em breve. Certamente essa será apenas a primeira de uma série de expedições para desbravar a “Zona de Crepúsculo” brasileira. Ainda existe muito trabalho a ser feito e certamente esse trabalho será menos penoso enquanto pudermos contar com a colaboração de laboratórios amigos e de empresas privadas como a PL Divers, que acreditam na ciência do Brasil!



Ramon Noguchi
Instrutor de Mergulho e Doutorando em Ecologia pela UFRJ
Instrutor Especialista PADI # 195028

Você gostaria de saber mais sobre rebreathers?? Entre em contato conosco! :)

Maiores informações : pldivers@pldivers.com.br

*Este texto tem caráter apenas informativo. Diversos conceitos aqui mencionados estão simplificados, visando uma maior compreensão pelo público geral. Este artigo não tem funções de treinamento em misturas gasosas e/ou rebreathers.